segunda-feira, setembro 21, 2026
Temos medo ao longo de toda a vida. Mudam os anos, mudam os medos.
No filme sobre a velhice e ultimos anos da Rainha Vitoria do Reino Unido, " Rainha Vitoria e Abdul" ela diz ao jovem Abdul - " Muitas vezes desejei morrer, mas agora que estou perto da morte, quero viver". Ele responde de acordo com sua filosofia da India - " somos gotinhas de agua num oceano". Ao assistir e gostar de filmes ou series eu volto muitas vezes pois meu interesse prende-se em alguns fatos, momentos, dilemas , falas que atendem minhas perguntas sem respostas. Claro que a beleza dos filmes faz 100% do sucesso, mas marcantes ficam frases, momentos de cumplicidade entre seres humanos transmitidos nas telas. Um outro momento relevante no filme mostra a rainha idosa, cansada mas resistente a transmitir ao filho herdeiro o seu trono. Ela, indignada , discorre todas enfermidades que a atormentam ( ela teve 9 filhos em 20 anos de casamento ) e ressalta - tudo isso MENOS LOUCA. Pois lembrei dessa cena para escrever sobre o fantasma do Alzheimer em familias com esse triste aprendizado. Funciona o fator hereditariedade para herdarmos essa " faca na garganta"? Sei que pelo exame de sangue conseguem prever as probabilidades. Acompanhei de perto uma pessoa querida , a vulnerabilidade fica imensa e a cada dia existem novidades. Creio que Alzheimer frente a possibilidade de AVC, Parkinson, cancer e outros males indesejados traz muito mais desafios aos cuidadores do que ao paciente. Assim foi o ataque fulminante de meu pai, na minha frente, quando ele estava com 57 anos e eu 11 anos. E se teve socorro foi porque o pai de minha colega era medico e eu implorei que numa noite de segunda-feira fosse em casa ver as dores no peito de meu pai. Conseguiu conversar com o medico, disse estar com " paura" e em minutos foi-se. O estrago foi imenso. A esposa passou a usar roupas pretas, ficou muito mais rigorosa e todas noites dassegundas-feiras era um novo luto. Eu considero que morri com meu pai em muitos aspectos. Faz parte da vida mas a morte de quem amamos fica entre os acontecimentos abominaveis. Aos 30 anos de idade era impossivel relatar oque acontecera, eu chorava e ficava sem palavras. E aos 50 ou 60 anos de idade pude compartilhar com relatos. Mas o que aconteceu nos meus 11 anos foi que a fatalidade levou o primeiro homem que amei. Imperdoavel - E mesmo tendo conseguido levar o pai de minha colega , medico, em 1963 para examinar meu pai eu me confrontei com meu primeiro fracasso. Muito intimo e pessoal, Rainha Vitoria desejou morrer muitas vezes ao longo da vida. E lutamos e inovamos para seguir vivendo o melhor possivel. Eu hoje desejo o bem de pessoas muito muito queridas, nem avaliam o quanto, evito o assunto da finitude . Chorar junto eu creio que consigo. 21/09/2026.
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